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domingo, 13 de março de 2011

A Cidadania na Actualidade

A Cidadania no seu sentido ideológico consiste num agregado de virtudes e a sua aplicação na vida social, caracterizada por uma preocupação com o colectivo e não apenas com o individual.

Tais virtudes vão desde o respeito à solidariedade passando pela imparcialidade racional e pela razoabilidade. Estas podem ser divididas em gerais, sociais, económicas e políticas, características que permitem uma melhor participação na vida pública.

Saber distinguir persuasão racional de manipulação é uma característica vital para a manutenção de uma sociedade democrática igualitária.

A regulação de um colectivo depende dos seus constituintes: numa aula de Educação Física, onde todos se conhecem bem, é possível jogar-se sem um árbitro definido. Pelo contrário, num jogo de futebol oficial como um F.C. Porto vs S.L. Benfica é-nos impensável concebermos o jogo decorrer sem um mediador teoricamente imparcial.
Na minha opinião, uma cidadania forte deve ser formada não através de um só método, mas através de vários. Estando esta intimamente ligada ao colectivo é natural ser uma colecção de fontes que providenciam o necessário para a formação de um bom cidadão.

Em casa começa a formação do indivíduo em todos os aspectos, incluindo os cívicos. O bom exemplo não só dos pais mas de toda a família é fundamental. O seio familiar é a primeira associação de indivíduos com a qual o individuo tem contacto e onde desde cedo inicia a sua aprendizagem acerca das relações interpessoais e de hierarquia estruturadas.

A escola é a segunda etapa de formação. A entrada no sistema de ensino representa a passagem para uma comunidade mais alargada, ou seja, para um protótipo de sociedade civil mas próximo do real. Na escola existe uma hierarquia, de uma maneira geral: director, professor, auxiliar, aluno. Todos possuem direitos e deveres, os quais devem usufruir e cumprir de forma ao estabelecimento funcionar ordeiramente e o objectivo de transmitir sabedoria ser cumprido. Existem dois meios de incutir virtudes, neste caso, por uma via implícita ou explícita. A implícita é adquirir valores pela convivência, como já foi referido. A explícita é através de, por exemplo, aulas de Formação Cívica onde teoricamente os estudantes são preparados para serem bem sucedidos na sua integração na sociedade.

Numa terceira etapa temos a entrada na maioridade. Ao longo do nosso crescimento vamos, além de cultivar as nossas virtudes, ganhando uma gradual independência intelectual e pessoal. A responsabilidade cresce: aos 16 anos o consumo de álcool é legal mas com restrições. As nossas ideologias vão ficando mais definidas, e com os 18 anos, além da festa de aniversário vem o direito ao voto. A introdução deste novo direito e dever moral é o culminar da formação de um cidadão. É finalmente a intervenção directa no processo político.

Com as bases lançadas, combinadas com a experiência de vida e gosto, um cidadão torna-se cada vez mais importante no bom funcionamento da sociedade. Existe hoje uma crise de cidadania, ou melhor, uma predominância da cidadania passiva o que leva a uma descredibilização dos políticos profissionais, pois estes agem sem saber a vontade do povo, pois este não se manifesta. Ora isto tem vindo progressivamente a mudar, apesar de a abstenção indicar algo diferente, cada vez mais a população intervém quando se sente injustiçada, cada vez mais a transparência governamental é requerida, exigida!

O recente movimento da “geração à rasca” vem comprovar o crescente interesse da população na mudança, na evolução da sociedade para uma melhor qualidade de vida. Acredito nestas manifestações como chamadas de atenção para os políticos mudarem a sua postura, relativamente aos problemas que o país enfrenta.
Acredito que esta transparência requerida gradualmente virá da parte dos estados; que tudo o que interfira directamente no funcionamento da sociedade virá a público. O governo deixou os media entrar, mais recentemente criou um site com as contas públicas…

Caminhamos, se nada o impedir, para um ideal de sociedade, de humanidade.

Os fenómenos tecnológicos dos últimos 10 anos provam como a Web já nada tem a ver com o navegar isolado como inicialmente, nem com a leitura, audição ou visão passivas. A Web deixou de ser apenas um sistema de armazenamento de dados, de pesquisa e publicação de conteúdos e passou a ser a derradeira plataforma de socialização e colaboração.

A sua utilidade vai desde o estabelecimento de contactos e a sua manutenção (utilizando por exemplo a famosa rede social Facebook), passando pelo armazenamento de dados das mais variadas fontes, contendo respostas às questões que ainda nem sequer colocamos (sítios como a Wikipedia), além de permitir a criação de espaços de colaboração organizada com benefícios mútuos (tal como o site Innocentive, onde empresas partilham o seu problema e pedem à humanidade a solução).

A Internet actual, a chamada Web2, tornou-se indispensável ao quotidiano. Todas as suas funcionalidades constituem uma poderosa ferramenta para a formação de cidadãos e para a continuidade da cidadania.
Sendo uma fonte quase inesgotável de informação é um óptimo apoio escolar e social. Saber é poder, e ter poder é essencial para um bom exercício de cidadania. Ter o poder de ter uma opinião bem formada e de não ser facilmente manipulado. Os cidadãos são os novos heróis do país, aos quais é exigida a coragem para tomar uma posição publicamente e de defendê-la, criticando racionalmente e respeitosamente as autoridades.

A capacidade de partilhar ideias, pensamentos e de se poderem criar movimentos facilmente levou ao panorama actual em países não democratizados exigirem um sistema político pelo povo e para o povo. O Facebook tem tido um papel preponderante no desenvolvimento das revoltas no Médio Oriente e África mais precisamente na Tunísia, Egipto, Iémen, Bahrein e mais recentemente na Líbia. A união faz a força e isso está realmente a ser empiricamente provado.
Não só redes sociais mas também blogues políticos desempenharam o seu papel na difusão da oposição aos governos.

Estes casos são um pouco extremos, mas se pensarmos em algo menos distante como petições é fácil perceber que é mais viável reunir um maior número de assinaturas, com vista a uma rectificação de uma injustiça, espalhando o problema na internet, do que ir bater de porta em porta.

A crescente acessibilidade a este muito promissor meio de comunicação e informação é verdade que democratizou algumas áreas como a indústria musical. Sem a internet, grandes talentos ainda hoje estariam escondidos. Ou pela falta de meios ou de pura sorte.
Sem as redes sociais ou o Youtube cantoras como Lady Gaga e Mia Rose seriam totalmente desconhecidos para nós, alguns poderiam achar isso excelente mas não é essa a ideia que quero transmitir.

Apesar de tudo, esta evolução pode não trazer apenas aspectos positivos. Este novo mundo virtual pode transformar-se na nossa “second life”, o que pode ser bom ou mau.
Se é verdade que existem já pessoas viciadas em internet, negligenciando a sua saúde e vida social real, este fenómeno pode tornar-se recorrente.

O mundo virtual está a tornar-se siamês do mundo considerado real. Assim sendo, as consequências são o aumento de violência verbal e insegurança na Web.
Está provado que a segurança está a diminuir e as legislações governamentais ainda não estão a acompanhar. É o caso dos crimes virtuais como pirataria, download ilegal, intromissões não autorizadas em redes privadas, que ainda não se encontram correctamente legislados, mas que acredito que irão estar num futuro próximo.

Esta necessidade de legislação vê-se cada vez mais urgente com o aparecimento de sites como o Wikileaks. É verdade que temos o direito ao conhecimento, mas não ao conhecimento indiscriminado. Vejamos que chega alguém à rua e começa a contar que aquele tem x dinheiro numa conta bancária, que o outro toma banho só às quartas-feiras, e que você só corta as unhas dos pés para ir para a praia, como se sentiria? Os que defendem que todos deveremos ter toda a informação e só depois discrimina-la não faz sentido. A informação tem de ser pertinente e não interferir com a liberdade individual de outrem.

O Wikileaks apesar de ter tornado públicas algumas informações relevantes diminui a sua credibilidade quando desce ao tabloidismo e publica notas pessoais entre dignatários, tais que fizeram com que funcionários que cumpriam as suas funções fossem despedidos.
O objectivo omitido desta desenfreada libertação de informação é criar o caos e a polémica. Defendo a transparência mas não através de meios como estes, meios que se ocultam, ironicamente.

Isto é inaceitável, ninguém pode saber tudo nem deve. A amizade, que é para mim a melhor palavra que caracteriza relações interpessoais, tem como base a confiança. A confiança existe pois não conseguimos nem devemos saber tudo. Se algum político prova não ser de confiança através das suas acções políticas o seu lugar não é num governo.

O exercício da cidadania apoia-se na internet e nos restantes meios de comunicação e de partilha de informação. Tais ferramentas vieram facilitar e acelerar os movimentos organizados que impulsionam a sociedade para o idealizado.
A cidadania é algo que se cultiva desde cedo, e que é muito influenciada pelo contexto social, económico e político no qual o indivíduo, o cidadão se encontra.

Sofia M. Borges de Azevedo

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